terça-feira, 29 de novembro de 2011

Violência é violência

Noutro dia quando fui buscar a minha filha na escola, ela entrou no carro, e disse: “Mamã, tenho que te contar uma coisa.” O que ela me contou foi um pequeno filme de terror, que basicamente envolvia uma auxiliar com muito poucos recursos, e um menino agredido. 

Ontem, quando fui buscar o meu filho a escola a primeira coisa que me disse foi: “Anda cá mamã, quero te contar uma coisa”… e contou-me outra história de violência. Desta vez muito menos grave em termos físicos. Em psicológicos não consigo avaliar. 

Photo by Nutdanai Apikhomboonwaroot
E há algum tempo atrás assisti a cena de um pai a bater no filho, como castigo pelo facto de o filho ter batido num amiguinho e ao mesmo tempo dizendo “Não se bate nos meninos!” (o menino deve ter tido um curto circuito?)

Acho que é altura de falarmos de violência. Sim, porque não há outra palavra… palmadas, surras, sovas, sapatadas, bofetões… são todas palavras que utilizamos para nós sentirmos melhor e justificar violência. E violência é violência, e da violência nasce mais violência. 

Sou do país que foi o primeiro no mundo a criar uma legislação contra violência física às crianças. Foi em 1979. Se alguém ainda não sabia, uma lei destas também existe em Portugal, desde 2007. Só para deixar claro que é ILEGAL, embora muitas vezes socialmente aceite, bater em crianças.

Uma pessoa que bate crianças, sejam elas os próprios filhos ou os filhos dos outros, normalmente faz isso por alguma razão e um objectivo para ela muito óbvia. Ela, dentro da sua cabeça, provavelmente está a utilizar uma estratégia que ela acha boa para fazer a criança obedecer. Há muitos problemas com esta violência. Tanto para a criança como para o agressor. Vou discutir alguns. 

Em primeiro lugar, pensando num assuntos que já discuti, como recompensas ou castigos, uma pessoa que utiliza violência para se impor, nunca está a ganhar respeito. A única coisa que “ganha” é o medo que a criança sente. A criança nunca irá respeitar um agressor, terá medo dele. Há uma grande diferença entre ter autoridade e exercer autoridade. Uma pessoa que bate, nunca terá autoridade, está unicamente a exercê-la.

 De acordo com o Jesper Juul, a violência exercida sobre uma criança terá sobretudo quatro tipos de resultados. 

- Emocionalmente a criança irá apagar a ansiedade, a dor e a humilhação da sua mente, e lembrar-se da sua infância como relativamente feliz. 

- Mentalmente vai ficar da opinião que violência na educação das crianças é justificada quando as crianças assim merecem. 

-Existencialmente e pessoalmente vai sofrer de baixa auto-estima (o que não quer dizer baixa auto-confiança), e vai ter dificuldade em respeitar os limites pessoais dele próprio e das pessoas a sua volta. É provável que tenha um comportamento auto-destrutivo. 

-Fisicamente também terá sintomas, como dores e tensão nas costas, barriga e peito. Sintomas que serão mais notáveis no contacto com os mais próximos.

A gravidade destes resultados dependerá de uma série de outros factores. Se além da violência houver problemas na família como toxicodependência, instabilidade emocional, resultados na escola etc. Além de mais graves, os resultados notam se mais cedo e vamos ver coisas como dificuldades de aprendizagem, comportamento “inadequado”, criminalidade, experiências com álcool e drogas, vandalismo….. Tudo, resultado do facto de os pais, através dos seus actos de violência, terem ensinado a criança que não é necessário respeitar e cuidar da sua própria integridade física e psicológica, nem das outras pessoas.

E então, não costumo bater no meu filho, nem quero nada disso, mas já aconteceu passar-me da cabeça, já fiquei desesperada, perdi o juízo e dei um bofetão…. Há alguma coisa que posso fazer para minimizar o efeito do meu comportamento?

Todos nós já fizemos coisas “erradas”, e certamente ainda estão muitas por fazer. O primeiro passo é tomarmos consciência do nosso comportamento. O Jesper Juul sugere que há uma coisa que se pode fazer para minimizar o efeito da violência assumir total responsabilidade pelo que aconteceu, emocionalmente e verbalmente. Após a situação, restabelecer o contacto com a criança e dizer: “Estou muito triste por te ter batido. Quando te bati, pareceu-me a coisa certa. Não foi. A culpa é inteiramente minha e quero te pedir desculpa por isso.”
 
Assumir responsabilidade total. Sempre. Pelos nossos actos todos. 

Alguém se calhar preferia dizer: “Anda aqui querido… desculpa, desculpas-me?… não foi de propósito… a mamã está triste por ter feito aquilo, nunca se vai repetir, prometo, vamos esquecer isso agora”. Em primeiro lugar, essa versão não tira a culpa da criança uma vez que a mãe não assume a responsabilidade (“não foi de propósito”), em segundo é pedido a criança para desculpar a mãe (o que não é a mesma coisa que pedir desculpa) e no fim é feita uma promessa que por  falta de auto-conhecimento, certamente será quebrada.  

Além dessa versão temos também a versão mais pedagógica que procura dividir a culpa.… “Estou muito triste, peço desculpa, não sei o que aconteceu… mas também tens que perceber que quando fazes assim, a mãe….bla bla bla” Uma versão que vai reforçar o sentido de culpa tanto na criança como no adulto.
Cada vez que escolhemos não assumir responsabilidade total pelos nossos actos estamo-nos a decepcionar a nos próprios e a por um peso em cima dos ombros das pessoas a nossa volta. E isso só pode afectar as nossas relações negativamente.

Na relação entre adultos e crianças, violência é sempre a responsabilidade do adulto. Também quando é a criança a bater.

Agora, imagina, estás no teu local de trabalho. Uma reunião está prestes a começar e alguns dos participantes, incluindo tu, estão a conversar. O chefe já pediu que se “calassem”, mas não lhe ligaram muito. Após a segunda ou terceira tentativa, tu ainda estás cheio de coisas para dizer (e além disso, ainda não percebeste o porque da reunião e a forma que o chefe te pediu, não foi nada simpático) e continuas. O chefe vai para a tua beira pede a tua mão. Tu das lhe a mão, e ele, pimba, bate-te…

Em Portugal e em todo o mundo fala se da forma que os adolescentes se estão a “portar”, que são violentos, que não sabem respeitar a autoridade, que são irresponsáveis etc. e políticos junto com muitos pais, falam em soluções envolvendo castigos e penalizações mais graves. Eu digo como o meu guru Jesper:  

“Isso não é só absurdo- é mais ou menos tão responsável e esperto como se sugerissem que o défice do orçamento do Estado fosse financiado com o dinheiro de Monopólio das crianças.” 

Os adolescentes vão se sentir cada vez pior… e o cenário só vai mudar quando os adultos assumem a responsabilidade pela violência física, e psicológica, que utilizam na sua relação com as crianças. 

Se queremos mudar o mundo um dos principais passos é mudarmos a forma como tratamos as nossas crianças. E isso, acho eu, é urgente.

Lembra-te, violência é sempre violência...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A palavra mais feia em português...

Alguma vez puseste o teu filho de “castigo”? 

Costumo dizer que “castigo” deve ser a palavra mais feia que existe na língua portuguesa…

Quando a minha filha mais velha tinha a volta de 3 anos houve um ou outro momento em que ela se “portou MUITO MAL.”… (no meu mapa mundo naquela altura). Foram momentos em que eu como mãe estava completamente sem recursos e escolhi experimentar o “método” de time-out (basicamente a mesma coisa que castigo), e pus a minha filha no seu quarto, sozinha, com a ordem de só sair quando ela se ia “portar bem”…. Só ao escrever estas linhas sinto-me cheia de remorso… e a mesmo tempo, muito grata por ter aprendido, através dos meus filhos, que este “método”, pode funcionar ao curto prazo, mas que no fundo, não resolve absolutamente nada. Pelo contrário. 

Só piora.